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ENTRE REMÉDIOS E HORAS: O LUCRO QUE NÃO TOMA FOLGA


ENTRE REMÉDIOS E HORAS: O LUCRO QUE NÃO TOMA FOLGA

Resumo – Neste ensaio em primeira pessoa, reflito sobre o paradoxo que emerge quando o setor farmacêutico — ícone público do cuidado — se declara “inviabilizado” pela simples hipótese de reduzir a jornada de trabalho de quem sustenta seus balcões. A partir de Zygmunt Bauman, Freud, Byung‑Chul Han e fontes jornalísticas sobre a PEC das 36 horas, indago: será mesmo o tempo o vilão, ou apenas a gravidade do dinheiro a dobrar o espaço‑tempo da dignidade?

Palavras‑chave: jornada de trabalho; indústria farmacêutica; medicalização; capitalismo líquido; saúde do trabalhador.

Introdução – A conta que só “não fecha” quando soma gente

Descobri que o relógio oficial do capitalismo vem com um alarme secreto: toca toda vez que alguém ameaça tirar uma hora sequer do expediente. Foi assim que ouvi Sérgio Mena, da Abrafarma, advertir que a Proposta de Emenda à Constituição que reduz a jornada para 36 horas “não fechava a conta” (TERRA, 2024) . O susto público me fez lembrar de Zygmunt Bauman, quando ironiza o mundo líquido que primeiro fabrica a doença para depois vender o remédio (BAUMAN, 2011) . Aqui, parece‑se fabricar cansaço para vender produtividade — e comprimidos, claro.

Bauman, Han e o sintoma do “corpo‑estoque”

Bauman escreveu que vivemos numa economia de “soluções sem problema”, onde produtos precedem necessidades (BAUMAN, 2011) . Byung‑Chul Han atualiza o diagnóstico ao narrar a Sociedade do Cansaço, na qual a exaustão deixa de ser exceção e vira pré‑requisito de performance (HAN, 2015) . Se o corpo é mero estoque, faz sentido que a farmácia incremente a linha “vitaminas para o turno extra” enquanto lamenta a falta de braços para 12 horas diárias.

O salto mortal da PEC das 36 horas

A deputada Erika Hilton angariou as assinaturas para protocolar a PEC; o Plenário ainda há de debater (CÂMARA, 2024) . Mesmo antes de qualquer relatório, a narrativa da inviabilidade já circula: margens apertadas, falta de profissionais, tele‑entregas que “não cobrem tudo”. Estranho: só em 2024 abriram‑se 22 novas farmácias por dia no Brasil e o faturamento do setor cresceu 14 % (SEBRAE, 2024) . A conta parece fechar quando soma lucro; abre‑se em crateras quando soma descanso.

Tele‑entrega, pandemia e a ilusão da omnipresença

Durante a pandemia, a circulação parou, mas as farmácias expandiram o serviço de entrega e, curiosamente, não quebraram (CNN BRASIL, 2023) . Hoje, o home office só é válido se for para o cliente; para o balconista, vale a onipresença física. A medicalização da vida descreve bem esse deslocamento: patologizam‑se estados normais para legitimar regimes de consumo contínuo (PRADO FILHO, 2019) . Patologiza‑se agora a pausa: descanso vira ameaça, não tratamento.

O custo real que nunca entra no Excel

Freud já acusara, no Mal‑estar na Civilização, que a renúncia pulsional tem preço psíquico (FREUD, 1930) . Se a farmácia recusa medir a fadiga de quem vende saúde, quem pagará essa conta invisível? Estudos sobre medicalização apontam que a própria indústria lucra duas vezes: primeiro com o esgotamento, depois com o calmante que promete curar o esgotamento (SILVA, 2010) .

Considerações finais – Gravidade, não matemática

Confesso: acredito na aritmética. Mas aprendi que, no varejo líquido, existe outra “força” mais determinante que a soma algébrica — a gravidade do dinheiro. Ela puxa o tempo para baixo até o trabalhador curvar‑se. Reduzir a jornada não é falha de cálculo; é colisão entre corpos de densidades desiguais. Enquanto isso, lucros sobem 10 % ao ano (ABRE, 2024) e o cronômetro permanece em contagem regressiva para a próxima crise de burnout que, adivinhe, já tem tratamento na prateleira.

Referências (ABNT)

ABRE. Setor farmacêutico pode crescer quase 10% em 2024, aponta pesquisa. Associação Brasileira de Embalagem, 2024. Disponível em: https://abre.org.br/.... Acesso em: 2 maio 2025. 

BAUMAN, Zygmunt. 44 Cartas do Mundo Líquido Moderno. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. 

CÂMARA DOS DEPUTADOS. Proposta de redução da jornada de trabalho e fim da escala 6x1 gera debates.... Brasília, 2024. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/.... Acesso em: 2 maio 2025. 

CNN BRASIL. Por que grandes redes de farmácia nos EUA estão fechando lojas pelo país. 19 out. 2023. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/.... Acesso em: 2 maio 2025. 

FREUD, Sigmund. O mal‑estar na civilização. 1930. Trad. José Octávio de Aguiar Abreu. PDF. 

HAN, Byung‑Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015. 

PRADO FILHO, Kleber. Medicalização da vida: ética, saúde pública e indústria farmacêutica. Psicologia & Sociedade, v. 31, e190011, 2019. 

SEBRAE. Brasil contabiliza 22 novas farmácias por dia em 2024. Agência Sebrae de Notícias, 2024. Disponível em: https://agenciasebrae.com.br/.... Acesso em: 2 maio 2025. 

SILVA, Maria Cecília — Org. Medicalização da Vida: ética, saúde pública e indústria farmacêutica. São Paulo: Cortez, 2010. 

TERRA. Fim da escala 6x1: “Conta não fecha no varejo”, diz associação de farmácias. 14 nov. 2024. Disponível em: https://www.terra.com.br/economia/.... Acesso em: 2 maio 2025. 

Escrito por: José Antônio Lucindo da Silva | CRP: 06/172551 E-mail: joseantoniolcnd@gmail.com

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