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O “Não” como Liberdade: o limite que salva o amor da idealização





O “Não” como Liberdade: o limite que salva o amor da idealização

Por: José Antônio Lucindo da Silva CRP:06/172551 joseantoniolcnd@gmail.com


Resumo: Este artigo propõe uma crítica à forma como o "não" é tratado nas relações contemporâneas, contrapondo a abordagem funcionalista da coluna Amor Crônico da Folha de S.Paulo à uma visão estrutural e existencial, ancorada em autores como Freud, Lacan, Cioran e Byung-Chul Han. Defende-se aqui que o "não" é condição de liberdade, reconhecimento da alteridade e sustentação simbólica do amor.

Introdução

Em um mundo onde tudo precisa ser leve, fluido e compartilhável, o "não" se tornou um problema. Como dizer "não" sem machucar? Como limitar o outro sem que ele se ofenda? Perguntas como essas alimentam uma demanda contemporânea por comunicação não violenta, empatia radical e afetividade de prateleira. Um exemplo disso é a coluna de Carol Tilkian na Folha de S.Paulo (2025), que ensina a dizer "não" sem ferir o parceiro. Mas o que está por trás desse desejo de suavizar o "não"? O que ele revela sobre o eu, sobre o amor e sobre a liberdade?

1. O "não" como estrutura simbólica



Lacan (1998) nos lembra que "o desejo do homem é o desejo do Outro". O sujeito se constitui pela falta, pela castração simbólica que delimita o que ele pode e não pode. Nesse sentido, o "não" é muito mais que um limite funcional: é o que permite a emergência de um sujeito. O "não" que vem do outro marca a existência de um Outro com desejo próprio, irredutível à minha demanda. Ele sustenta a diferença.

2. A liberdade não é plenitude, é confronto com o limite



Ao contrário da esperança, que Espinosa (2009) e Cioran (2009) tratam como paixão triste, o "não" é a presença de um real que não se curva à minha idealização. É a manifestação da liberdade do outro. E, como tal, é também condição da minha própria liberdade. Porque não há liberdade se não há limite. O "não" devolve ao sujeito o dever de elaborar a falta, e não de consumi-la.

3. A frustração como elaboração



Freud (2010), ao falar da renúncia pulsional, aponta que a frustração é um componente essencial da civilização e da vida psíquica. Uma relação que não tolera frustração é uma relação condenada à infantilização. O "não" ensina a esperar, a suportar, a elaborar. Amor que não suporta frustração é só projeção carente.

4. A lógica da demanda e o colapso do desejo



Vivemos em uma era de demandas. Como aponta Byung-Chul Han (2012), a subjetividade contemporânea está presa à positividade do igual, ao consumo afetivo, à performance ininterrupta. O "não" é uma anomalia nesse sistema, porque ele interrompe o fluxo da validação. Dizer "não" é recusar ser funcional, é resistir à objetificação do vínculo.

Conclusão

Ao contrário do que propõe a abordagem leve e palatável de dizer "não sem machucar", defendemos aqui que o "não" é uma expressão ética da liberdade, da diferença e da verdade. Machuca? Talvez. Mas é um machucado real, que pode ser elaborado, e não uma anestesia afetiva que transforma o amor em um serviço sob demanda. O "não" é, afinal, o que ancora o amor na realidade.

Referências

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Tradução de Paulo Cezar de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

HAN, Byung-Chul. A agonia do eros. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2012.

LACAN, Jacques. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

CIORAN, Emil. Breviário de decomposição. Tradução de Fernando Santos. São Paulo: Rocco, 2009.


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