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“Entre o Eu e o Algoritmo: o desespero performático de existir”





“Entre o Eu e o Algoritmo: o desespero performático de existir”

Sou fruto de uma época marcada pela aceleração, pela sobreposição de discursos e pela tentativa desesperada de construir um eu sólido sobre um chão que se dissolve a cada curtida. Em meio a tantas vozes, tantas opiniões, tantos algoritmos moldando até mesmo meus desejos, começo a suspeitar que o que falo já não me pertence. O discurso que construo parece mais uma mercadoria do que uma expressão autêntica de mim. Como dizia Byung-Chul Han, o outro virou uma funcionalidade, uma "não-coisa" — e talvez eu também.


Já não sei se desejo ou apenas obedeço a uma demanda. O prazer se transformou em moeda, e a carência virou produto. A lógica do mercado é tão feroz que não me permite sequer elaborar minha dor — ela é imediatamente traduzida em conteúdo, em post, em performance. O luto não tem mais tempo, como alertava Fédida. A depressão foi convertida em identidade e a ansiedade, em falha de desempenho. E nesse contexto, sou cobrado a me mostrar otimizado, coerente, resiliente — quando, na verdade, só queria parar.


Freud talvez dissesse que há um recalque em ação, mas hoje não se recalca: se exibe, se representa, se performa. E no centro de tudo, esse eu que não sabe mais se é. Como diz Cioran, talvez estejamos mascarando nosso desespero com uma dúvida que nem é mais genuína. Vivemos sob o império da certeza fragmentada, onde qualquer questionamento precisa caber em 280 caracteres e gerar engajamento. E quanto mais penso, mais me aproximo da ignorância — não por falta de saber, mas porque sei demais e ainda assim continuo errando.


A modernidade líquida de Bauman não derreteu apenas os vínculos: ela diluiu também o tempo da experiência, a densidade do afeto, a profundidade da dor. Nos tornamos equilibristas em uma corda fina, onde não há equilíbrio, só a ilusão dele. A tensão que deveria gerar Eros, como propunha Freud, foi substituída por um fluxo contínuo de satisfação instantânea — e isso não gera sentido, só mais vazio.


Marcuse nos alertou sobre a racionalidade tecnológica que transforma a liberdade em prisão confortável. Hoje, essa prisão tem paredes de LED e sensores de presença. Eu me vejo nela, e mesmo ciente de suas grades, continuo postando, curtindo, discursando. Estou dentro de uma gaiola de ouro, onde até minha resistência é mercadoria. E se tudo pode ser comercializado, até o meu desespero pode ser algoritmo.


A dúvida não me liberta. A aceitação não me consola. O tempo não me espera. E talvez minha única liberdade seja justamente essa angústia que me lembra que ainda estou aqui. Por mais alienado que esteja, ainda sinto o desconforto de não caber nas prateleiras onde querem me vender.


Talvez, como Nietzsche propôs, o amor ao destino seja o único ato de coragem possível. Amar o que é — ainda que absurdo, incoerente, imperfeito. Não para buscar consolo, mas para não me perder completamente na performance de um eu que nunca existiu.


Autor,Obra Principal (citada ou relacionada),Conceito Chave Utilizado

Byung-Chul Han,A Sociedade do Cansaço / No Enxame,"O outro como funcionalidade, sujeito como performance"


Jean-Claude Fédida,L’eclatement du corps (A dispersão do corpo),Impossibilidade do luto na contemporaneidade


Sigmund Freud,O Mal-Estar na Civilização,"Recalque, Eros e a tensão psíquica"


Emil Cioran,Breviário de Decomposição,"Desespero, dúvida e niilismo"


Zygmunt Bauman,Amor Líquido / Modernidade Líquida,"Liquidez das relações, dissolução do afeto"


Herbert Marcuse,O Homem Unidimensional,Racionalidade técnica como dominação


Friedrich Nietzsche,Ecce Homo / A Gaia Ciência / Crepúsculo dos Ídolos,Amor fati e a aceitação do destino



Por : José Antônio Lucindo da Silva CRP:06/172551 joseantoniolcnd@gmail.com



#maispertodaignorancia 



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