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A consciência como serviço: quando o sujeito vira atualização de sistema



A consciência como serviço: quando o sujeito vira atualização de sistema

Por José Antônio Lucindo da Silva
CRP: 06/172551

O primeiro episódio da sétima temporada de Black Mirror, intitulado "Pessoas Comuns", é mais do que uma distopia tecnológica: é um espelho incômodo que nos devolve não a imagem do futuro, mas o reflexo mais cru do presente. A trama acompanha Amanda, professora diagnosticada com um tumor cerebral, cuja "cura" é oferecida por uma empresa chamada Rivermind: remover a parte afetada de seu cérebro e substituí-la por tecido sintético, conectado a um servidor remoto. Em troca, ela viverá. Desde que se pague a mensalidade.

Não se trata mais de imortalidade, como prometia o transumanismo. Trata-se da amortalidade: uma existência que não morre, mas também não vive. Amanda torna-se funcional, performática, uma plataforma de si mesma. Para manter seu funcionamento, ela passa a veicular anúncios involuntários em sua fala. A dor não é mais um sintoma, é um erro de sistema. A depressividade, como propõe Fédida (2001), exige tempo, corpo, luto. Aqui, não há tempo. Há upload noturno e atualização de servidor.

E o marido? Mike, que deveria ser o Outro simbólico, o lugar da escuta e do desejo, torna-se objeto a serviço de um objeto. Ao tentar manter Amanda viva, ele se inscreve numa plataforma de humilhação digital chamada Dum Dummies, onde realiza performances degradantes em troca de doações. Ele vende o próprio corpo e dignidade para sustentar aquilo que já não é mais uma mulher, mas uma interface com rosto familiar.

E quando Amanda pede para ser desligada, a contradição explode: como um objeto pode pedir para deixar de existir? Como pode haver desejo num ser cuja consciência depende de um servidor? Será esse pedido uma escolha ou uma funcionalidade de aprendizado de máquina? Como diria Byung-Chul Han (2015), não estamos mais lidando com sujeitos, mas com não-coisas funcionalizadas, cuja existência se resume a performance e engajamento.

E se Mike ainda sofre, isso não o liberta. Isso apenas o torna um objeto trágico: um utensílio com afetos. Seu choro final não é subversivo, é apenas um bug no sistema. Porque no fundo, ele também aceitou os termos de uso. E amar, nesse contexto, não é mais um gesto humano. É uma assinatura mensal.

Como bem antecipou Rosa Luxemburgo (2011), o capitalismo avança sobre todos os espaços ainda não colonizados. Hoje, já não há fora. O capital se alojou dentro da consciência. E ela, como Amanda, apenas pede silenciosamente para ser desligada.

Referências:

Fédida, Pierre. O luto e a obra do luto. São Paulo: Escuta, 2001.

Han, Byung-Chul. A sociedade da transparência. Petrópolis: Vozes, 2015.

Luxemburgo, Rosa. A acumulação do capital. São Paulo: Nova Cultural, 2011.

Freud, Sigmund. O mal-estar na civilização. Obras Completas, vol. 17. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.



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