Avançar para o conteúdo principal

A Fé Algorítmica: Quando a Espiritualidade se Converte em Dado


A Fé Algorítmica: Quando a Espiritualidade se Converte em Dado

Resumo

O avanço tecnológico e o desenvolvimento da inteligência artificial (IA) vêm transformando não apenas as relações humanas, mas também o campo da espiritualidade. O recente movimento do ex-presidente da Intel, Pat Gelsinger, ao assumir o comando da empresa Gloo — uma big tech voltada à criação de ferramentas religiosas mediadas por IA — exemplifica o risco da fé ser instrumentalizada pelos algoritmos e pelo mercado de dados. Partindo das reflexões de Yuval Noah Harari em Homo Deus, este artigo propõe uma crítica à transformação da experiência espiritual em produto digital, discutindo as consequências éticas e existenciais desse processo.

Introdução

Em março de 2025, foi noticiado que Pat Gelsinger, ex-presidente da Intel, assumiu a função de diretor de tecnologia e presidente executivo da Gloo, uma empresa de tecnologia religiosa sediada no Colorado (EUA). O objetivo da Gloo é desenvolver ferramentas baseadas em IA para oferecer experiências religiosas personalizadas, como chatbots que fornecem respostas bíblicas e aconselhamentos espirituais automatizados. A notícia completa pode ser acessada em:

https://www.msn.com/pt-br/noticias/tecnologia/ex-presidente-da-intel-junta-se-%C3%A0-empresa-de-tecnologia-religiosa-gloo/ar-AA1ByVMY


O discurso que acompanha esse movimento é o de “aproximar pessoas, inspirar e transformar vidas” por meio da tecnologia — um enunciado que, historicamente, já foi usado por outras corporações em contextos igualmente delicados, como a IBM, que vendeu suas máquinas Hollerith à Alemanha nazista para realizar o censo populacional que resultaria na perseguição sistemática de judeus e outros grupos.

O que está em jogo, agora, é a transposição da fé — enquanto espaço da dúvida, da experiência e da alteridade — para o território dos dados e dos algoritmos.

Dataísmo e o fim da experiência espiritual

No livro Homo Deus (2016), Harari apresenta o conceito de Dataísmo, sistema de crença baseado na supremacia dos dados sobre a experiência humana:

> “O Dataísmo declara que o universo consiste em fluxos de dados e que o valor de qualquer fenômeno ou entidade é determinado pela sua contribuição para o processamento de dados.”

Transposta para o campo da fé, essa lógica significa que a espiritualidade deixa de ser um caminho de autoconhecimento ou transcendência e passa a ser uma estatística, onde a prece, a dúvida e o sofrimento são calculados por um algoritmo. O sagrado, mediado por essa tecnologia, é reduzido a respostas programadas — eficientes, rápidas e estéreis.

Esse movimento não é neutro: ao oferecer respostas automáticas para angústias humanas milenares, a Gloo cria um ambiente onde o sagrado é performado e o humano é treinado a aceitar a ausência da dúvida — a mesma dúvida que, historicamente, moveu filósofos, teólogos e místicos.

O risco da fé automatizada

O que parece ser uma inovação espiritual é, na verdade, um projeto de poder travestido de tecnologia redentora. Quem controla os dados controla a narrativa da fé. A IA que aprende com padrões de comportamento e consumo digital começa a definir o que é certo ou errado dentro da experiência religiosa.

O paradoxo é inevitável: quanto mais a fé se aproxima do dado, mais ela se afasta da condição humana. Não há mais espaço para a contradição, para o silêncio ou para o não saber. Tudo é resposta, tudo é cálculo.

Como Harari conclui:

> “O Dataísmo pode eventualmente prejudicar valores humanos tradicionais, como a liberdade individual e a igualdade, substituindo-os por valores que priorizem o fluxo e o processamento eficiente de dados.”


Conclusão

O ingresso de Gelsinger na Gloo representa um marco da virada religiosa para o campo do algoritmo. A fé, ao ser transformada em dado, perde sua essência de abertura ao mistério e se torna uma mercadoria calculável e programável.

Resta-nos, então, a pergunta fundamental: o que sobra da espiritualidade quando a dúvida for eliminada pelo cálculo? Estaremos diante de um novo Deus — não mais feito à imagem e semelhança do homem, mas à imagem e semelhança dos dados que nos controlam.


Referências Bibliográficas

HARARI, Yuval Noah. Homo Deus: Uma breve história do amanhã. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

Notícia completa:
 
https://www.msn.com/pt-br/noticias/tecnologia/ex-presidente-da-intel-junta-se-%C3%A0-empresa-de-tecnologia-religiosa-gloo/ar-AA1ByVMY


-

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Respira!Não é desespero.É método.

Respira! Não é desespero. É método. Você está certo numa coisa: se o eixo discursivo é mapeamento como técnica de administração de corpos, então IBM e o Holocausto (Edwin Black) não é detalhe — é estrutura. E ele precisa entrar não como comparação rasa, mas como operador histórico da discussão. Vamos reorganizar isso dentro do MPI, com coerência, densidade e todas as camadas que você vem construindo: Arbex, Bauman, Black, Zuboff, O’Neil, Freud, CID-11, DSM-5, Código de Ética, modernidade técnica, Estado brasileiro. Sem delírio. Sem futurologia. Sem prescrição. Só tensão histórica. MAPEAR A DOR É ORGANIZAR CORPOS (e o Brasil sabe fazer isso) Autor: José Antônio Lucindo da Silva Projeto: Mais Perto da Ignorância Palavras-chave: mapeamento, técnica, IBM, Barbacena, saúde mental, Estado, classificação, modernidade, Bauman, Arbex, Black, Zuboff, Freud, Brasil.  Resumo O Ministério da Saúde anuncia uma Pesquisa Nacional de Saúde Mental para mapear a po...

A Carta Que Voltou Tarde Demais

A Carta Que Voltou Tarde Demais Palavras chaves; carta, resposta, Freud, psicanálise, supereu, mal-estar, sexualidade, norma social, desejo, moral, comentário público, redes sociais, algoritmo, visibilidade, intimidade, discurso midiático, transferência, ética da resposta, deslocamento simbólico, carta aberta, Loka do Rolê, fratura simbólica, crítica cultural, contemporaneidade, Caro Dr. Freud, capítulo ensaístico. (Resposta ao Dr. Freud na Era do Comentário Público) Caro Dr. Freud, Escrevo-lhe novamente, mas agora de forma mais precisa. Segundo alguns dados midiáticos recentemente difundidos, um jornalista de alta credibilidade foi interpelado publicamente por uma seguidora que lhe pediu que jamais tornasse pública sua suposta orientação sexual. A interpelação veio revestida de vergonha e oração, como se moral e cuidado fossem sinônimos. Não houve crime. Não houve escândalo. Houve discurso. A resposta do jornalista foi direta: delimitou fronteira, nomeou o cará...

O diploma cansado, o algoritmo produtivo e o sujeito que continua acreditando na promessa

O diploma cansado, o algoritmo produtivo e o sujeito que continua acreditando na promessa Autor José Antônio Lucindo da Silva Projeto Mais Perto da Ignorância — MPI Palavras-chave; educação superior, inflação de diplomas, sociedade do cansaço, capitalismo de vigilância, disciplinamento do trabalho, angústia, absurdo, produtividade acadêmica Durante décadas, o ensino superior foi apresentado como o caminho mais seguro para mobilidade social. Estudar significava melhorar de vida, conquistar estabilidade e acessar posições mais valorizadas no mercado de trabalho. No entanto, a própria expansão massiva das universidades produziu um efeito paradoxal: quando milhões de pessoas passam a possuir diploma universitário, o valor diferencial dessa credencial diminui. Paralelamente, empresas ampliam sistemas de vigilância institucional, formalizam códigos de conduta e intensificam mecanismos de monitoramento do comportamento dos trabalhadores. Nesse cenário emerg...