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Geração Z: A Revolução do Café Gelado e das Demissões Prematuras

Geração Z: A Revolução do Café Gelado e das Demissões Prematuras



Nos últimos tempos, o mercado de trabalho tem se deparado com um fenômeno curioso: a Geração Z, também conhecida como a geração do “não me estresse”. Ao que tudo indica, os empregadores estão jogando a toalha e desistindo dessa safra de trabalhadores pouco tempo após a contratação. Uma pesquisa recente apontou que 60% dos recém-chegados ao mercado são demitidos em poucos meses, e as razões são tão previsíveis quanto um algoritmo de recomendação de redes sociais: dificuldade com a carga de trabalho, atrasos frequentes, vestimenta inadequada e, claro, problemas de comunicação. 

Ah, a comunicação! O que era para ser a geração mais conectada da história se revela como a mais desconectada da realidade. A ironia não poderia ser mais deliciosa. Eles dominam as gírias, os memes e o dialeto das redes, mas não sabem estruturar uma resposta minimamente profissional a um e-mail ou entender que feedback não é ofensa pessoal. E, se forem contrariados, a fragilidade emocional explode em um surto digno de reality show.

A lógica do desempenho, que já esmaga gerações anteriores, agora encontra sua resistência mais cômica: o sujeito que, ao ser cobrado, simplesmente desiste, bloqueia o chefe mentalmente e vai buscar um "safe space". Como já refleti anteriormente, vivemos um tempo em que a ansiedade virou um problema a ser eliminado e não uma experiência legítima. A Geração Z não quer lidar com a tensão do trabalho, e esse é o grande paradoxo da autoajuda otimizada: ao tentar evitar o desconforto, eles caem no desespero da irrelevância.

O Mercado como Espelho do Vazio

Se essa juventude foi forjada na hiperdiscursividade e no culto da identidade, era óbvio que o choque com a materialidade do trabalho seria um desastre. Como já pontuei antes, a identidade do "eu" na sociedade capitalista se tornou uma mercadoria dentro da lógica de Bauman e Byung-Chul Han. O problema é que, no trabalho, não há espaço para os jogos discursivos das redes sociais. Não adianta elaborar threads intermináveis sobre saúde mental no Twitter enquanto se ignora prazos ou se ofende com um simples pedido de revisão de relatório.

E aqui entra o mercado como ironia final: a própria discursividade que sustentou essa geração é a que agora a descarta. O sistema os treinou para vender a própria imagem, mas esqueceu de treiná-los para entregar resultados. A consequência? Um looping infinito de insatisfação: eles rejeitam a pressão, são demitidos, fazem vídeos no TikTok sobre "burnout" e, em seguida, procuram outro emprego onde a mesma tragédia se repetirá.

O Trabalho não é um Feed Personalizado

A Geração Z não apenas incorporou a lógica da mercadoria, mas também a do imediatismo. O trabalho, diferentemente do feed do Instagram, não pode ser customizado para corresponder apenas ao que se deseja ver. Ele exige compromisso, adaptação e esforço—três conceitos que essa geração, de forma geral, trata como ultrajes.

Curiosamente, no mercado atual, a própria ansiedade de ser relevante e bem-sucedido leva à desistência precoce. O medo do fracasso os paralisa. No fundo, essa crise de demissões é um sintoma de algo muito maior: a impossibilidade de sustentar a ilusão de um "eu" forte e autêntico sem o suporte de um algoritmo para validar sua existência.

Referências:

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Zahar, 2001.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Vozes, 2015.

MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização. Zahar, 1981.

CIORAN, Emil. Breviário da Decomposição. Rocco, 2011.

FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. Companhia das Letras, 2010.

"3 Motivos Explicam Por Que a Geração Z É Demitida das Empresas". Forbes Brasil, 24 de outubro de 2024. 

"Demissões em alta: geração Z deixa empregos e empresas reagem com cortes". E-Investidor, 8 de fevereiro de 2025. 

"Chefes Demitem Profissionais da Geração Z Apenas Alguns Meses após Contratá-los". Forbes Brasil, 11 de outubro de 2024. 

"O que está por trás das altas taxas de demissão da Geração Z?". IstoÉ, 24 de outubro de 2024. 

"Demissão por vingança: a revolta da geração Z no mercado de trabalho". Portal Contábeis, 13 de janeiro de 2025. 

"Rage Applying: conheça a tendência de desligamento que está crescendo com a Geração Z". Exame, 6 de janeiro de 2025. 

"Mercado de trabalho precisa se reorganizar para receber geração Z". Jornal da USP, 23 de outubro de 2024. 
"Os chefes não aguentam: funcionários Gen Z estão sendo demitidos poucos meses depois de serem contratados"

 Link: https://www.terra.com.br/byte/os-chefes-nao-aguentam-funcionarios-gen-z-estao-sendo-demitidos-poucos-meses-depois-de-serem-contratados,8c31072f0df4fc539f22805153ef3ef6h2glh6bb.html


"Chefes Demitem Profissionais da Geração Z Apenas Alguns Meses após Contratá-los"

 Link: https://forbes.com.br/carreira/2024/10/chefes-demitem-profissionais-da-geracao-z-apenas-alguns-meses-apos-contrata-los/


"Demissões em alta: geração Z deixa empregos e empresas reagem com cortes"

 Link: https://einvestidor.estadao.com.br/mercado-de-trabalho/demissoes-em-alta-geracao-z-deixa-empregos-e-empresas-reagem-com-cortes/


"Geração Z está sendo demitida em poucos meses por falta de preparo"

 Link: https://www.contabeis.com.br/noticias/69202/geracao-z-esta-sendo-demitida-em-poucos-meses-por-falta-de-preparo/


"Desmotivação faz geração Z ser demitida mais rápido"

 Link: https://www.osul.com.br/desmotivacao-faz-geracao-z-ser-demitida-mais-rapido/


https://www-estadao-com-br.cdn.ampproject.org/v/s/www.estadao.com.br/amp/economia/sua-carreira/geracao-z-trabalho-depressao-fracasso-pesquisa/?amp_gsa=1&amp_js_v=a9&usqp=mq331AQIUAKwASCAAgM%3D#amp_tf=De%20%251%24s&aoh=17395593974892&referrer=https%3A%2F%2Fwww.google.com&ampshare=https%3A%2F%2Fwww.estadao.com.br%2Feconomia%2Fsua-carreira%2Fgeracao-z-trabalho-depressao-fracasso-pesquisa%2F








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