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O Eu Líquido, a Morte Sólida e a Mentira Heroica: Um Desabafo Existencial na Era do Like


O Eu Líquido, a Morte Sólida e a Mentira Heroica: Um Desabafo Existencial na Era do Like


Eu, um mero espectador da minha própria vida, decidi hoje refletir sobre o que significa ser "eu" em um mundo onde o "eu" não está em lugar nenhum. Sim, caro leitor, estou falando daquele ser que você tenta representar nas redes sociais, naquele perfil que você atualiza com fotos filtradas e frases de efeito, enquanto rola a timeline de alguém que você nem conhece. Bem-vindo ao ciberespaço, onde a identidade é tão sólida quanto um meme de segunda-feira.

O Eu que Não Existe (Mas Posta Foto do Café)

Zygmunt Bauman, o sociólogo que nos presenteou com o conceito de "modernidade líquida", certamente sabia do que estava falando quando descreveu a fluidez das identidades na contemporaneidade. Hoje, o "eu" é uma colagem de stories, tweets e atualizações de status. Somos o que postamos, mas também somos o que apagamos. E, no fim das contas, não somos nada. Ou somos tudo. Ou somos algo no meio do caminho entre um post viral e uma conta fake.

Bauman diria que essa fluidez é libertadora. 

Eu digo que é desesperador. Afinal, como construir uma narrativa coerente sobre si mesmo quando o algoritmo decide que sua última foto não merece engajamento? Como negar a morte, como propõe Ernest Becker, se nem mesmo sua existência online é garantida?

A Mentira Heroica do Século XXI

Ernest Becker, em sua genialidade, nos mostrou que a "mentira heroica" é uma forma de lidar com o terror da morte. Criamos projetos, ideologias e sistemas de significado para nos sentirmos imortais. Mas, no ciberespaço, a mentira heroica ganha novos contornos. Agora, buscamos likes, seguidores e visualizações como se fossem pequenas doses de imortalidade. Cada coraçãozinho no Instagram é um "eu existo" desesperado. Cada compartilhamento no Facebook é um "eu importo" patético.

Freud, com sua teoria do mal-estar na civilização, certamente aprovaria essa análise. Afinal, o que são as redes sociais senão um grande palco para a repressão dos nossos instintos mais sombrios? Postamos fotos sorridentes enquanto roemos as unhas de ansiedade. Compartilhamos frases motivacionais enquanto choramos no banheiro. A civilização digital, assim como a tradicional, nos exige sacrifícios. E o maior deles é a autenticidade.

Cioran e a Decomposição Digital

E então temos Emil Cioran, o filósofo do pessimismo, que certamente riria (ou choraria) ao ver nossa tentativa desesperada de criar significado no ciberespaço. Para Cioran, a decomposição é inevitável. E no mundo digital, essa decomposição é acelerada. Perfis são abandonados, memórias são apagadas, e o que resta é um vazio ainda maior do que o que existia antes.

Cioran diria que toda essa busca por conexão e validação online é uma farsa. E ele estaria certo. Afinal, quantas vezes você já se sentiu mais sozinho depois de passar horas rolando a timeline? Quantas vezes você se perguntou se aquela pessoa que curtiu sua foto realmente se importa com você? A resposta, caro leitor, é: não, ela não se importa. E você também não se importa com ela. E está tudo bem. Ou não.

Conclusão: 

O Eu que Nunca Foi (Mas Vai Postar Isso no Twitter)
No fim das contas, o "eu" que tentamos representar no ciberespaço é uma ilusão. Uma mentira heroica digital. Uma tentativa desesperada de negar a morte, a solidão e a insignificância da existência. Mas, como diria Bauman, essa fluidez também pode ser uma oportunidade. Se o "eu" não está em lugar nenhum, talvez ele possa estar em todos os lugares. Ou em nenhum. Ou em algum lugar no meio do caminho entre um post e um like.

E eu, em minha infinita sabedoria (ou falta dela), decidi abraçar essa fluidez. Vou postar esse artigo, esperar alguns likes, e talvez, quem sabe, me sentir um pouco menos sozinho. Ou não. Afinal, como diria Cioran, "a lucidez é o pior dos pesadelos". E eu, pelo menos, prefiro sonhar.

Referências

1. BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

2. BECKER, Ernest. A Negação da Morte. São Paulo: Editora Record, 1973.

3. FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. Porto Alegre: L&PM, 2010.

4. CIORAN, Emil. O Breviário da Decomposição. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.


#maispertodaignorancia

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