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A Íris da Vigilância: Entre a Individualidade e o Paradoxo do Controle

A Íris da Vigilância: Entre a Individualidade e o Paradoxo do Controle

Quando penso na coleta biométrica da íris, promovida por projetos como o Worldcoin, sou imediatamente tomado por um sentimento de ceticismo e fascínio. Esse tipo de tecnologia toca em algo profundo, uma tensão entre vigilância e individualidade que parece espelhar as contradições da nossa própria existência. Ao entregar algo tão único e imutável como a íris, eu sou reconhecido como um indivíduo em meio a bilhões de iguais, mas, paradoxalmente, me torno apenas mais um dado preso dentro de um sistema global de vigilância.

Refletindo sobre isso, percebo como os olhos, há muito chamados de "espelhos da alma" no senso comum, tornaram-se símbolos apropriados pela tecnologia. Poetas e filósofos sempre apontaram o olhar como algo que reflete a essência humana, nossa subjetividade mais íntima. E parece que a tecnologia compreendeu muito bem essa metáfora. Ao utilizar a íris como ponto central de identidade, ela captura não apenas um fragmento do corpo, mas aquilo que culturalmente aprendemos a associar à nossa singularidade, à nossa alma. Esse movimento é impressionante porque, ao mesmo tempo que me coloca como uma representação única de mim mesmo, também me insere em um sistema que uniformiza e controla todos os bilhões de "únicos".

O Paradoxo da Singularidade

É curioso como essa tecnologia me separa de milhões de outros seres humanos iguais a mim, afirmando minha singularidade através de uma estrutura algorítmica. Mas, ao mesmo tempo, ela me conecta e me aprisiona a bilhões de indivíduos dentro de um sistema que controla nossas identidades. Essa dualidade é inquietante: ao me fragmentar – reduzindo minha identidade a um dado biométrico –, a tecnologia também me posiciona como uma unidade essencial, algo que invariavelmente busco em minhas interações, especialmente no espaço digital.

Pensemos nisso: na internet, eu me esforço para construir minha individualidade através de discursos, opiniões e compartilhamentos. Quero ser único, reconhecido, mas também preciso de validação, de conexões com outros. Com a íris, a tecnologia oferece uma espécie de validação suprema – ela diz: "você é único, insubstituível." Contudo, ao mesmo tempo, ela me transforma em mais um, reduzido a uma cadeia de códigos que sustentam um sistema maior. Isso me faz questionar: até onde isso é vigilância e até onde isso é individualidade?

Entre Fragmentação e Unidade

A ambivalência dessa tecnologia é evidente. Ela fragmenta ao isolar um ponto do meu corpo, os olhos, e o utiliza como material de identidade. Mas, ao fazer isso, também me coloca em um patamar de unidade – algo que eu, enquanto ser humano, busco constantemente, seja no mundo físico ou digital. No entanto, essa busca de unidade dentro do espaço digital me exige discursar, construir uma narrativa sobre mim mesmo. Eu preciso ser "milhões" para ser reconhecido como "um". E, nesse paradoxo, minha individualidade só existe dentro de um sistema que me posiciona como parte de uma massa controlada.

A questão que fica para mim é: até que ponto essa tecnologia reforça minha singularidade e até onde ela serve para me submeter a um controle maior? Para ser verdadeiramente individual, eu preciso construir e discursar sobre minha própria individualidade, algo que muitas vezes vai além do espaço digital. Contudo, dentro da discursividade digital, minha individualidade só pode existir se for compartilhada, validada por milhões. Assim, a tecnologia que promete me identificar como único acaba me inserindo num ciclo em que a individualidade se torna um reflexo da coletividade, e vice-versa.

Conclusão

A leitura da íris, ao mesmo tempo que refina quem eu sou, me reduz a um "eu discursivo" controlado por algoritmos. Isso não é apenas uma questão de vigilância, mas também de como construímos nossa identidade em um mundo cada vez mais mediado pela tecnologia. Esse processo me leva a refletir sobre a ambivalência de sermos únicos e, ao mesmo tempo, parte de um sistema global. No fim, a pergunta que permanece é: até onde essa tecnologia nos permite sermos "um" e até onde ela nos faz sermos apenas "mais um"?

Referências

Becker, Ernst. A Negação da Morte. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2007.

Freud, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

Han, Byung-Chul. Sociedade da Transparência. Petrópolis: Vozes, 2017.

Han, Byung-Chul. Psicopolítica: O Neoliberalismo e as Novas Técnicas de Poder. Lisboa: Relógio D'Água, 2014.

Kierkegaard, Søren. O Desespero Humano. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

Zuboff, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.

Link noticiários 

https://br.cointelegraph.com/news/federal-government-warns-about-data-collection-from-world-from-the-worlcoin-cryptocurrency-in-brazil

https://livecoins.com.br/brasileiros-desconhecem-razao-de-escanear-a-iris-para-ganhar-criptomoedas-dizem-especialistas/amp/

https://g1.globo.com/google/amp/tecnologia/noticia/2023/08/09/worldcoin-quer-escanear-a-iris-de-toda-a-populacao-mundial-e-gera-alerta-em-autoridades.ghtml

https://super.abril.com.br/mundo-estranho/como-e-feita-a-leitura-biometrica-de-iris-e-retina


#maispertodaignorancia
@joseantoniolucindodasilva

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