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Negar a Morte: Uma Estratégia de Sobrevivência ou de Alienação?


Negar a Morte: Uma Estratégia de Sobrevivência ou de Alienação?

A ideia da negação da finitude da vida, como proposto por Ernest Becker em A Negação da Morte, nos convida a confrontar um paradoxo fascinante: ao sabermos que haverá um fim, deveríamos, ao menos teoricamente, abraçar a consciência do agora. Contudo, o que fazemos? Idealizamos e mentimos para nós mesmos, construindo narrativas que nos afastam dessa verdade intransponível. É curioso, para não dizer irônico, que os discursos que deveriam nos ajudar a lidar com o fato da morte acabam, muitas vezes, nos adoecendo ainda mais.

A fé e a esperança, enquanto impulsos discursivos, projetam-nos em um futuro improvável, quase sempre alienante. Mas o fim – essa verdade concreta e inegável – permanece. E aqui surge a questão: será que viveríamos de maneira mais plena ao aceitar a materialidade do nosso ser finito? Talvez, ao invés de amortecer o desespero existencial com discursos identitários, pudéssemos usá-lo para nos libertar deles. Afinal, o que mais poderia ser tão libertador quanto a consciência de que, um dia, tudo isso terminará?

A subjetividade, como sempre, é individual; a vivência, como sempre, é particular. No entanto, o fato de que haverá um fim deveria nos desafiar a escolher que tipo de vida queremos viver. Por que nos agarramos a discursos que nos aprisionam em identidades, medos e narrativas vazias, em vez de explorar as inúmeras possibilidades de existir? Não seria esse o verdadeiro antídoto para o desespero existencial?

Curiosamente, o medo da morte, outrora uma força que dava limites e significado à nossa condição, parece hoje desprovido de peso. Nossas amortizações discursivas o tornaram irrelevante, apagando a dúvida genuína e, com ela, qualquer possibilidade de uma vivência mais autêntica. Ao que tudo indica, a pergunta "O que é o fim?" foi silenciada, substituída por respostas pré-fabricadas e confortáveis que não demandam reflexão.

Dessa forma, seguimos vivendo vidas que não são nem certas, nem erradas – apenas não vividas. E assim, talvez, ao reconhecer nossa mortalidade, pudéssemos reformular as perguntas que realmente importam. Porque, se o fim é inescapável, por que desperdiçar a experiência com discursos que apenas nos afastam de nós mesmos? Ou será que o verdadeiro desespero está em perceber que a dúvida, hoje, já não passa de uma formalidade?



José Antônio Lucindo da Silva
CRP: 06/172551
joseantoniolcnd@gmail.com

#maispertodaignorancia
@joseantoniolucindodasilva

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