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O analfabetismo digital e a fé cega no algoritmo

O analfabetismo digital e a fé cega no algoritmo


Não é só o teclado que denuncia: estamos diante de um novo tipo de analfabetismo. Um que mistura o velho funcional com o novo digital, criando um sujeito que lê tudo, mas entende quase nada. E pior: acredita.

Não me refiro àquela falta de escolaridade que se preenche com cursos rápidos e certificados coloridos. Falo de algo mais profundo, estrutural. Uma falha civilizatória disfarçada de modernidade. Somos uma sociedade que terceirizou a compreensão para as máquinas. E, com isso, se permitiu ser enganada por qualquer tela que pisca com autoridade.

O Brasil não é exceção — é o laboratório perfeito. Dados do INEP e do IBGE apontam que mais da metade da população adulta tem dificuldade de interpretar textos simples. Agora, some a isso o acesso irrestrito a inteligências artificiais que respondem tudo com uma segurança digna de um deus do Olimpo digital. O resultado? Gente perguntando ao ChatGPT se pode tomar antibiótico com cachaça. E acreditando.

Fraudes no INSS, golpes por SMS, promessas de heranças milionárias vindas da Nigéria: tudo isso continua porque o sujeito médio não sabe mais distinguir discurso de dado. E o pior: há quem pense que um print de tela é prova.

A própria OpenAI admite: suas respostas podem estar erradas. Mas quem lê rodapé? A fé mediada pelo algoritmo tornou-se dogma. E isso não é só ignorância — é suicídio epistêmico.

Fingimos saber porque temos acesso. Acreditamos entender porque digitamos. E, nesse processo, a pergunta se tornou desnecessária. O dado virou religião. E o discurso, uma fake news de si mesmo.

Se a verdade é construída, alguém precisa lembrar que há andaimes. Mas, neste canteiro de obras discursivo, já não há operários — só estagiários da certeza.


#maispertodaignorancia


Referências:


BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.


PONDÉ, Luiz Felipe. A Era do Ressentimento: uma agenda para o contemporâneo. São Paulo: LeYa, 2014.


GREEN, André. Narcisismo de Vida, Narcisismo de Morte. Rio de Janeiro: Cia de Freud, 2000.


INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE. Indicadores de Alfabetismo Funcional, 2022.


INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS – INEP. Relatório de Alfabetismo no Brasil, 2023.


OPENAI. ChatGPT System Card, 2023. Disponível em: https://openai.com/research.


Autor:
José Antônio Lucindo da Silva, CRP 06/172551. Psicólogo clínico, pesquisador independente no Blog “Mais Perto da Ignorância”.
#maispertodaignorancia

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